
No porto crepúsculo detrás das montanhas, lá estava. Lá estava sentada a figura de um homem cujos traços mostravam certa diversidade para os demais da região. Tal cais diante da imensidão azul atracava no máximo três ou quatro naus, dando as costas para o sertão meticuloso em que sonhos eram forjados sob as costas dos valentes homens que se aventuravam pelo mar. Todos sabiam que apenas cortavam as ondas gélidas e tenebrosas diante da fúria de Poseidon aqueles cuja experiência e determinação andava lado a lado em seu leito mundano, feito a vida. Aqueles cuja herança já fora dada e seus primogênitos ensinados a seguirem seus passos até darem inicio a nova geração do pequeno vilarejo beira-mar. Mas aquele... Aquele pequeno homem diferenciado dos demais, sem uma feição robusta ou traços de longas jornadas de trabalho, estava lá. Estava lá ao invés de estar acolá em meio de damas angelicais e canecas e mais canecas de cerveja. O que acontecera? Talvez, sua única túnica e botas o denunciavam. Não tinha ninguém, não tinha o que proteger. Era um presidiário sem grades sob o chão de sua sombra.
Boatos diziam que o menino dado às trevas e amarguras do mundo, sozinho na tempestade litorânea tivera uma vez alguém. Alguém que o ensinara a ser digno e valente, mais que qualquer um que aquele cais já sustentara. Fora criado por um pequeno velhinho como ele, perdido em sua própria vida, mas sábio por sua própria trajetória. Uma coisa que o jovem homem sempre recitava, era o quão épico queria que sua história fosse contada, o quão, lembrada de grandes feitos e hereditária daquele que mesmo sem o mesmo sangue, o acolhera. Isso era o que o fazia seguir em frente. Embora sua aparência pouco digna de um renomeado marinheiro, já enfrentara os mares em busca de novas esperanças para seu povo, para seus desconhecidos, porém não menos que humanos e sentimentais. Em épocas como esta, certa melancolia o invadia por inteiro e apenas o passar sereno de seus dedos sujos no artesanal e meticuloso anel de ouro, enquanto todos tinham um grande banquete de despedida com suas respectivas famílias, o satisfazia.
Mais um olhar para o céu e mais uma lembrança. Era uma noite mais escura comparada às outras no verão da costa em um dos becos da cidadela. Lá estava, solto no chão, arremessando uma pequena bola contra a parede. Gostava daquele lugar por este motivo em especial, não havia alguém que o pudesse julgar por sua aparência esdrúxula ou inferioridade por não ter um lar. O lugar era próximo de uma das tavernas coloniais, então já havia visto de tudo. Ria sozinho ao lembrar-se do caso em que, cego pelo dinheiro e poder, um homem cordial fora beber até perder os sentidos no pequeno estabelecimento e acabou no rodapé da rua, sufocado por seu próprio vomito. Era trágico, mas mais que sua vida miserável, não podia. Por isso ria. Mas daquela noite nebulosa, nunca esqueceria. Ao cansar de seu pequeno jogo de arremesso, percebera um pouco distante dali, gritos suaves de uma dama. Intuitivo pelos valores dados pelo velhinho, hoje já morto, porém vivo em sua alma, fora checar o que estava acontecendo. Em frente ao bar, um pequeno grupo de estrangeiros que passavam pela cidade mexia com a delicada morena de cabelos cacheados, contra sua vontade. Ao olhar de todos e ao fazer de ninguém, ficara indignado e pôs-se a ajudá-la. Embora as habilidades que a rua trouxera para o jovem fossem de grande peso, não conseguiria derrubar tantos, sendo assim, espancado até a perda de sua consciência antes de ouvir um ultimo grito suave, feminino, porém desesperado – “Deixem-no em paz!”.
Ao retomar sua sanidade, já era de manhã e não sabia direito o que havia acontecido na noite anterior. No estado que estava, não sabia nem mesmo se era a noite anterior. Estava em sua barraca na praia, no pequeno colchão ao lado do lampião em cima do livro que há tanto tempo, deixava em branco. Muito dolorido, colocou-se sentado olhando em volta, não tinha mais ninguém e não fazia idéia de como fora parar ali, até que em mais um olhar, encontrou uma nota em cima de suas páginas:
- "Agradeço-o gentilmente e calorosamente por me defender. Por outro lado, peço meu humilde perdão por ter se machucado.
Obs: Continue a recitar, pois figura tão bela quanto a sua, há de ser reconhecida”.
Não podia negar que não ficara emocionado com as palavras e o tratamento que a mulher que naquela noite havia defendido o dera. Deitou-se novamente e com a cabeça pulsando, jogou os braços para o lado e sentiu uma pequena peculiaridade circular. Estranhou e logo virou-se rapidamente, defrontando-se com um pequeno anel dourado. Demorou um pouco, mas finalmente entendera. Era o anel da jovem dama que talvez pudesse o ter esquecido ali. Passaram-se dias esperando pela volta em busca do anel por parte da mulher que o havia cuidado, mas nada. Aquilo estava em suas mãos e, como uma promessa, haveria de devolver a qualquer custo. Fora neste momento, que o jovem homem colocara como pingente junto a sua corrente, dada como amuleto por seu “pai”, aquele que o cuidara sempre.
E mais um suspiro, estava de volta à realidade. Seus dedos caminhavam mais uma vez pelo o anel e sabia que a peça o dava segurança. Desde o ocorrido, o loiro já partira em diversas jornadas em frente ao mar e, como depósito de confiança, criava forças para voltar e devolver o anel para sua amada. Aquela que um dia, a única pessoa além do velhinho, cuidara daquele que nunca teve nada. Então, junto ao colar, colocou o anel sob seu peito, embaixo de sua vestimenta e pôs-se a subir na grande nau e esperar pelos outros aventureiros. Não muito tempo depois, estavam todos a bordo, acenando para suas famílias e entre choros na incerteza de que podia não vê-los novamente, estavam mais uma vez de costas para o sertão, indo em frente para a imensidão.
Tinham como objetivo na longa expedição, explorar a costa em busca de novas riquezas e literaturas que enriquecessem seu povo. De cidade a cidade, pouco a pouco, o sucesso era presente na bravura dos grandes homens do pequeno vilarejo. O jovem homem, por sua vez, não tinha motivação para descobrir novas artes e técnicas para sua região, e sim, para aperfeiçoar-se em sua própria técnica de escrita e assim sendo, dar continuidade ao único pedido que aquela, descoberta por sua amada, o fizera. Dar continuidade as suas linhas. Aquilo o ecoava na cabeça, e anos, sem inspiração para ao menos fazer um relato no livro de sua trajetória na busca pelo conto épico, desde seu encontro com a figura bela, já tivera preocupação de não caber tantas especificações sobre como, pensando nela, sua vida ficara mais viva. Assim descobriu que estava apaixonado. A partir do momento que, em um dia qualquer, um dia perdido em que por intuição, decidiu de sair do pragmatismo e ver o que estava acontecendo, achou o fator que matara a vida como o conhecia e iniciaria o começo de uma nova vida esperançosa para o jovem: ela.
Ao passar de cada cidade, sempre visitava as bibliotecas da região, em busca de mais enriquecimento para a obra dedicada a sua amada. Já tinham meses que estavam no mar, longe de casa e mesmo assim, o brilhar do anel de ouro o entorpecia mais que qualquer aurora boreal que já presenciara no mar noturno. Estavam prontos para a volta, reabastecidos em uma pequena cidadezinha litorânea no norte da costa, visavam os mares sulistas, os mares de casa. O garoto fazia a ronda noturna em cima do mastro principal e, sozinho, perdido em devaneios, começara a recitar para sua amada desesperadamente, sabendo indiretamente que, possivelmente algo poderia vir a acontecer:
Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amar, não digas, que morro
De surpresa... De encanto... De medo...
Minha vida não foi um romance
Minha vida passou por passar
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.
Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... Passou sem enredo...
Glória a ti que me enches de vida
De surpresa, de encanto, de medo!
Minha vida não foi um romance...
Ai de mim... Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso... De um gesto... De um olhar... De você.
Seja qualquer crença mítica ou espiritual que os humanos podem seguir, seja qualquer falta de fé que outros podem ter, porém aquela intuição veio a calhar. Após terminar seu recital, observou nuvens carregadas, vindas em direção à nau e em um grito, avisou a todos o que estava por vir. A fúria dos mares, naquela noite não estava passageira, veio para matar. Imensas ondas de um lado invadiam o navio em um destruir estrondoso. Imensas ondas de outro, levavam aquilo enfraquecido. Trovões gritavam a ira dos deuses, e os gritos dos homens, ecoavam cada vez mais baixo diante de tão poderosa ira natural. Já sem esperança, o jovem homem colocara suas páginas debaixo de sua manta. Com a corrente e o anel em mãos, o ventilar supremo cortando seu rosto, gritava contra o mundo – “Vida, venha e prepare o melhor para me derrubar!”. E ao som dessas palavras, a onda raivosa quebrara o convés ao meio, levando toda sua lírica épica, ao fundo do mar.
A tempestade finalmente passara, e apenas vestígios da engenharia da nau boiavam sob o mar. Novos e inocentes raios de sol invadiam as partes antes cobertas por trevas e tempestade. Escutavam-se barulhos de gaivotas e as ondas na pororoca fazendo um barulho sereno. Era muito difícil saber o que estava acontecendo. Barulhos distantes da trovoada passada ainda eram escutados com tremor. O sol estava caloroso e generoso, chegando a incomodar aqueles expostos a tal claridade. Percebia-se também que ao passar do tempo, tudo ia se acalmando e o barulho das ondas chegava mais perto e perto. Quase sem o incomodo daquele sol até então escaldante, sentiu a primeira sensação da maré alta que durante sua vida inteira, molhara seus pés, agora em seu rosto. Abriu os olhos leves e pesadamente bem devagar. Um pisque aqui, um pisque acolá, tentando acostumar-se com a luz, mesmo que ao final da tarde, já era baixa no crepúsculo visível. Estava vivo? A primeira coisa que pensou. Seu corpo doía e pesava mais que toneladas de cargas que já houvera descarregado das naus naquele pequeno porto. Em mais um processo lento, colocou-se de pé, meio que se rastejando e cambaleando em direção a cidade banhada por aquela praia que naufragara. Já era noite e o encontro da primeira casa rural, bateu na porta pedindo por ajuda. Fora bem acolhido e acabara dormindo por dois dias seguidos.
Melhor fisicamente, ao acordar do segundo dia, em um primeiro gesto, colocou a mão em seu peito e viu, que nada lá tinha. Assustou-se e levantou-se rapidamente, deixando-o com uma incrível dor de cabeça, até que ao encontro do proprietário que acabara de entrar no quarto, em um gesto, indicara o colar, o anel e os manuscritos do jovem homem em cima da mesa, para seu alívio. A recepção na casa do casal de agricultores, fora calorosa deixando o garoto com seus eternos agradecimentos pela hospitalidade, novas roupas e informações. Sua cidade natal, não ficava muito distante dali, mas na caminhada, seria uma grande jornada pela frente.
Antes de sair dali, daquela pequena cidade em que jurou estar morto, voltou para a praia e observou o nascer do sol. Era tudo tão lindo, mas lembrara do desastre que ocorrera dias atrás e tudo de repente tornava-se tão sombrio. Encarou aquilo como mais um desafio vivido e, com seus pensamentos a serem preenchidos em mais algumas páginas em branco debaixo dos braços, suas duas relíquias perto de seu coração e a determinação de ainda reencontrar sua amada, fizera o amor suspirar alegre por ter finalmente percebido o que realmente o havia acontecido: sobreviveu a um ataque dos mares enquanto nenhum dos outros conseguira. Além disso, sobreviveu carregando aquilo que era mais importante em sua vida. Seu passado, feito a corrente dada por seu pai, seu presente, feito seus manuscritos que descreviam seu passado catalisador de seu presente e ainda a terminar com linhas de seu futuro e por fim, o anel de sua amada. Seu amuleto mais precioso que o fizera ter gosto de viver novamente, que o fizera crescer, ter determinação em encontrar sua dona novamente e presenteá-la com a peça perdida. Sabia que apenas havia sobrevivido em meio de tantas tempestades pelo amor que possuía em seu peito àquela figura de cabelos encaracolados, o sorriso mais sincero e olhos penetrantes. Sabia que essa era sua felicidade.
Em meio a mais um suspiro e ao olhar do nascer do sol litorâneo, virou-se de costas para a imensidão e seguiu pelo sertão de volta pra casa, de volta para o seu amor, de volta para mais algumas palavras com o túmulo de seu pai, de volta para a redenção. Esse era seu conto épico, esse era o jovem homem que fora tomado pelo amor e guiado pelo mesmo, continuava com um sorriso no rosto em meio de tantas dificuldades de sua vida. Essa jornada, de volta a casa, era finalmente, suas ultimas linhas como poeta sonhador. Ele sabia disso, era sua intuição.
Afinal, um tigre nunca muda suas listras!