Estou diante da vida. Da vida que ainda vou levar.
Saber que muito me aguarda e que muito anseio conquistar.
Amigos amores, que venham aos montes.
Vida que venha e prepare o seu melhor para me derrubar.

Porque hoje sou lobo, sou forte. Um guerreiro nato.
Com fogo nas veias e um mundo aos meus pés esperando que eu o sinta.
Cada vez mais astuto e forte. Não tenho medo da morte, porque ela é o elo.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Perdido em meus devaneios




Na triste e linda zona leste,
Sento no portão e vejo o movimento,
Varais segurando ternos, ganhando movimento com o vento, os quais mais pareciam com marionetes.
E me vem na cabeça, será aquela uma representação de nosso próximo vereador?
Aquele vereador que jura estar sendo induzido por sacramento?
É ai que me deparo com uma dupla de velhinhas caminhando ladeira acima com seus carrinhos de feira e balbuciando a respeito da nova nora.
Uma brisa gelada passa por meus cabelos dourados de uma forma que me faz retroceder um pouco de minha vida.
De começo, ouço o barulho da fricção de uma roda com o chão,
De repente, me vejo encima de meu fusca azul de infância, sentindo essa mesma brisa,
E quando paro para perceber, lá estou eu, de pé, descendo a mesma ladeira íngreme, a qual as velhinhas subiam com esforço, como um jato, com meu skate.
A brisa retorna diante de meu rosto e mais uma vez meus cabelos, até então longos, são jogados para trás. Jogados para trás, como esta página de minha vida.
Estou de pé, porém não mais correndo.
Um suor bem humano desce por minhas costas e me deparo com uma platéia esperando por meu discurso.
Olho para a esquerda e vejo a serenidade da Tristão da Cunha.
Olho para a direita e vejo o fim da ladeira de minha infância.
Olho para frente e vejo o mesmo terno, agora vestido por meu avô, balançando a cabeça positivamente e dizendo em voz alta ao meu encontro: “Estou orgulhoso de você, filho!”.
Uma lágrima escorre por minhas bochechas e em um piscar de olhos, lá estava eu, enfim formado!
Uma nova batalha viria pela frente, mas perdido em meus devaneios, me vejo novamente sem foco no portão da casa 106.
Não era certo quanto tempo tinha se passado ali, porém o movimento estava diferente.
O que antes era uma brisa de outono tornou-se uma ventania de inverno.
Não havia mais ninguém por ali, com exceção de um senhor barbudo tomando seu pileque.
Retomei minha atenção para aquele homem que, solitário sorria em meio da ventania.
Intrigado, me vejo novamente rodeado de pessoas em volta de uma longa mesa, as quais discutiam a respeito de que lugares sentariam.
Uma ou outra dizia tanto faz, outras pediam para sentar ao meu lado, e quando realmente percebi, lá estava eu, diante de meu império que voltando à visão do homem, parecia distante.
Neste momento, outra lágrima escorre em meu rosto e inexplicavelmente como o velho solitário, começo a rir em meio do frio causado pelos ventos.
Trocando olhares, o homem levanta seu caballito e me faz um aceno de saúde com a cabeça.
Retribuo com um sorriso e ao final de seu extenso gole, o homem cai ao chão e tem sua visão focada no céu, que agora tem suas nuvens se abrindo para finos raios de sol, que apenas o iluminam.
Mais uma vez me perco e vejo todos aqueles que sentavam naquela mesa, caminhando para a saída, um a um.
E quando percebo, eles já não estão mais lá.
Saio caminhando pela madrugada fria e chuvosa aos sons de Uriah Heep relembrando frases e momentos que marcaram a história.
Pelo menos, minha história...
Neste momento, sinto um leve sorriso de canto se formando em minha expressão.
É a figura de um ídolo após uma superação pessoal dizendo com os olhos marejados: “Esta parte, esta pequena parte da minha vida, se chama felicidade”.
E voltando ao meu foco, ouço ecoando em meus ouvidos naquela noite deserta e chuvosa: “It’s raining outside, but that’s not unusual, but the way that I’m feeling, is becoming usual”.
Lá estava eu em um paradoxo.
Volto a olhar para a praça e vejo o velho homem respirando fundo e lentamente olhando para aquela fresta entre as nuvens.
O mesmo fecha os olhos e com uma voz rouca e fraca diz: Esta parte, esta pequena parte da minha vida... se... chama...
Um turbilhão de pensamentos invade minha cabeça, porém só um, de fundo, se sobressai diante os outros: “I guess you could say the clouds are moving away. Away from your days and into mine”.
E finalmente foi ai que me dei conta que o paradoxo vivido naquela madrugada é o mesmo que estava vivendo neste momento. Deparava-me com o meu próprio final, a minha própria incerteza de que rumo iria levar.
Me via olhando para minha própria morte.
E em mais um piscar de olhos vejo aquela tarde serena e clara novamente.
A dupla de velhinhas voltava com os carrinhos cheios de frutas e comentando sobre a decoração do quarto do bebê que estava por vir.
Desta vez, aquele eu, velho e barbudo, olhava para este eu, jovem e imberbe, com minha bandeira do velho Raulzito em suas costas, e seus lábios pronunciavam: “A morte, surda, caminha ao meu lado e eu nem sei em que esquina ela vai me beijar”.
Outra brisa agora morna, passa em meus cabelos não mais cumpridos, e me faz despertar.
Vou aprender a tocar violão, vou me apaixonar. Vou fazer um som, para minha amada sempre lembrar!
E esta parte, esta pequena parte de minha vida, se chama felicidade!

Afinal, um tigre nunca muda suas listras!